Alfredo Emílio Andersen foi considerado o mais importante pintor estrangeiro residente no Brasil em sua época. Ele nasceu em Kristiansand, sul da Noruega, dia 3 de novembro de 1860, filho do Capitão da Marinha Mercante Tobias Andersen e de Hanna Carine Andersen.
Aos treze anos pintou aquela que se supõe seja a sua primeira tela, intitulada "Akt". Entre 1874 a 1877 estudou com Wilhelm Krogh, conhecido pintor na Noruega, que considerava seu pupilo um jovem de excepcional talento. Com dezoito anos mudou-se para a Dinamarca. Sua carreira, a partir de então, alcança rápida progressão, passando o artista a exercer atividades não só de pintor, como de cenógrafo e decorador.
Engenheiro ou pintor ?
Alfredo Andersen nasceu em Christianssand, Noruega, no ano de 1860. Veio a falecer em 1935 em Curitiba, Paraná, onde passou a maior parte de sua vida.
Pertencia à mesma geração do escritor Knut Hamsun (1859-1952, cujo retrato executou, e do pintor Edvard Munch(1863-1944).
Aos 17 anos, matricula-se na Academia de Belas-Artes de Cristiânia (atualmente Oslo), como aluno de Krohg,vencendo as resistências do pai, que queria vê-lo engenheiro naval.
Entre 1879 e 1883, com uma bolsa de estudos, freqüenta a Real Academia de Belas Artes de Copenhague, da qual seria mais tarde professor de Desenho.
Retornando da Dinamarca em 1883, no ano seguinte realiza sua primeira individual, em Cristiânia. De então, até 1890, continua expondo regularmente, realizando também pequenas viagens ao estrangeiro, sobretudo à França.
Uma volta pelo Novo Mundo
Mas em começos da década de 1890, obedecendo, quem sabe, à mesma espécie de obsessão que exatamente na mesma
época levaria Paul Gauguin
ao Taiti, decide empreender longa viagem aos Trópicos, a bordo de um veleiro.
Nesse percurso, vai ao México, toca em Barbados e chega à costa setentrional brasileira, executando inclusive, em 1892, uma bonita Vista de Cabedelo.
Em 1893, de novo na Europa, a caminho de casa, sabe que sua cidadezinha fora praticamente destruída por um incêndio.
Conheceu o Paraná e
por ali ficou
Decide então voltar ao Novo Mundo: embarcando com destino a Buenos Aires num veleiro que transportava ferro e carvão da Inglaterra, atinge Paranaguá, para reparos no barco.
Por obra do destino, pisa pela primeira vez no Estado do Paraná, que não estava em seu roteiro. Simpatizando com a terra, vai-se deixando ficar no Brasil, primeiro em Paranaguá, e após 1902, em Curitiba.
É ele quem fala de seus primeiros contatos com a capital paranaense:
«Tive a agradável surpresa de ser logo procurado por particulares, para os aceitar como alunos. Fundei então a minha escola de desenho e pintura, que ainda funciona. Mais tarde fui instituído professor de Desenho da Escola Alemã e do Colégio Paranaense do Dr. Marins Camargo, sendo, em 1909, convidado pela diretoria da Escola de Artes e Indústrias, então de D. Maria Aguiar de Lima, para assumir a direção das aulas noturnas que a mesma escola criara.
«A criação de um curso noturno de Desenho foi excelentemente recebida pelo público e em breve se tornou preciso reduzir a matrícula aos profissionais de ofício e indústria, excluindo-se os diletantes. Assim se conservou um total de 60 alunos, todos operários, entre 14 e 30 anos.»
Desenho, a base do
progresso industrial
Esse aspecto da atuação de Andersen como incentivador de vocações de operários e como pioneiro da boa forma industrial ainda não foi suficientemente enfatizado.
Na verdade, já em 1917 o pintor escandinavo dizia, na mesma entrevista, estabelecendo uma relação de causa e efeito entre a instrução e o progresso de um país:
«Pois é isto: o ensino do Desenho, desenvolvendo o sentimento estético e, por conseguinte, o bom gosto, ensina a ver.»
A lição da Alemanha
E prosegue Andersen:
«Sabemos que a Alemanha era, há 40 anos, um Estado agricultor e, pelo Desenho, se fez um Estado industrial. Sabe-se também que o seu début na Exposição Industrial de Chicago foi um fiasco. Barato e ruim, assim definiram a Alemanha industrial naquele certame.
«Ainda nesse tempo pouco remoto a Inglaterra e a França a sobrepujaram, porque, ao ensino do Desenho, nestes dois países, se tinha ligado um interesse especial.
«A Alemanha compreendeu: estudou os métodos do ensino do Desenho na Inglaterra, onde cada escola empregava um método de conformidade com o entendimento dos seus ilustres professores.
«Reconheceu até que grau se tinha elevado nas escolas inglesas o ensino do Desenho e fez também as suas pesquisas na França, no Japão e na América do Norte, apercebendo-se então da grandeza sem par desse problema que a sua ânsia de progresso não tinha ainda resolvido e orientado no sentido das artes aplicadas.
Preparou pois a Alemanha o seu grandioso plano do ensino do Desenho, tendo por objetivo uma educação em harmonia com o indivíduo. Daí nasceram a sua arte e as suas indústrias modernas - quer dizer - o seu imenso progresso nesses dois ramos da conquista humana.»
A primeira mostra no Brasil
Andersen chega a antever um curso de Desenho para operários, que traria a felicidade ao Paraná, porque faria a grandeza das suas indústrias:
«Quando chegarmos a ter pelo menos uma simples Escola de Desenho para Operários, sem falar numa Escola de Artes Aplicadas, naturalmente mais dispendiosa, teremos atingido a primeira etapa verdadeiramente real do nosso progresso.
Pouco após se radicar em Curitiba, Andersen ali realizou uma primeira individual de 18 óleos, sendo quatro retratos, e os restantes, paisagens e figuras. O crítico do Diário da Tarde, em artigo de 20 de março de 1907, observou com acuidade:
«Na observação da nossa natureza, o ilustre artista norueguês mostra um desenvolvimento notável, mais acentuada energia de colorido, em contraposição dos saudosos tons nevoentos que lhe eram costumados e freqüentes, auros decerto da sua visão escandinava.
«Da mesma forma, a quente coloração de carnes, sistematicamente rubra, que, parece, trouxera da arte flamenga, se lhe tem modificado, o que naturalmente se havia de dar em um artista de tão séria e meticulosa faculdade de observação.»
Na mesma exposição quatro alunos de Andersen mostravam quadros, entre eles Lange de Morretes.
O «Pai da Pintura Paranaense»
A atividade didática de Andersen, aliás, seria tão fecunda, que o crítico Carlos Rubens na monografia que lhe consagrou, chega a chamá-lo de Pai da Pintura Paranaense, reconhecendo seu papel de elemento aglutinador de tendências e características que, se já antes se tinham manifestado esporadicamente, só agora achavam quem as concatenasse, inclusive do ponto de vista técnico.
Várias outras exposições realizaria o pintor norueguês, não só em Curitiba (1914, 1920, 1923 e 1930) como no Rio de Janeiro (1918) e em São Paulo (1921), todas com grande sucesso.
Também participou do Salão de Belas Artes, conquistando menção honrosa no de 1916 e medalha de bronze no de 1933.
Brasileiro, de papel passado
Apesar de tais vitórias, Andersen continuou levando existência difícil no Brasil, dado o provincianismo cultural então vigente.
Tendo adotado a cidadania brasileira e no Brasil constituído família, jamais pensou em retornar à pátria, nem mesmo quando, em 1927, o governo da Noruega ofereceu-lhe a direção de uma Escola de Belas Artes.
Após um ano de permanência na Escandinávia, da qual assim se despedia, Andersen regressou ao Paraná, trazendo na bagagem um punhado de telas da mocidade, inclusive o já mencionado Retrato de Knut Hamsum.
Museu conserva a
alma do pintor
Cidadão de Curitiba em 1931, Andersen faleceu a 9 de agosto de 1935, em sua residência-ateliê curitibana, mais tarde transformada no Museu Alfredo Andersen
O artista praticou todos os gêneros, destacando-se como paisagista, intérprete sensível e pessoal da natureza paranaense, e como pintor de figuras.
Em sua mocidade, tocado pelo Simbolismo, que lhe motivaria algumas de suas melhores composições, Andersen pouco a pouco deixou sua orientação original, trocando-a por agudo senso de observação e por acentuado amor à realidade.
Espontâneo e vigoroso no pincelar, colorista sensível, sua obra é um caso único de aclimatação cultural de um artista escandinavo em terra brasileira.
Fonte: CD-Rom «500 Anos da Pintura Brasileira»
Retratos
O fato de ser amante da liberdade e adepto da integração do homem à natureza aproximou-o do famoso escrito Knut Hamsun, autor de "A Fome", que também defendia os mesmo ideais. Andersen retratou o amigo em 1891, dando início, a partir de então, a uma série de retratos, segundo ele, de caráter mais subjetivo. O retrato de Hamsun fica agora na Galeria Nacional da Noruega.
Em 1892 o artista voltou a empreender outra longa viagem a partir de Kristiansand, em navio capitaneado por seu pai, cuja etapa final seria Buenos Aires. Na costa brasileira, o barco aportou no porto de Cabedelo, Paraíba, local onde teve a oportunidade de pintar uma belíssima tela com a paisagem litorânea da cidade. Ao continuar a viagem para o sul, um forte temporal provocou avarias no mastro da embarcação, obrigando-o a aportar em Paranaguá.
Clima de mistério
Ainda hoje persiste um certo clima de mistério no fato de o artista - cujo nome já se projetava na Europa, onde deixara amigos, admiradores e familiares - ter tomado a decisão de permanecer nesse porto brasileiro, em uma terra, para ele, inteiramente estranha e de duvidosas perspectivas profissionais. Residiu o artista em Paranaguá durante cerca de dez anos, quando conheceu Anna de Oliveira, uma jovem vinte e cinco anos mais moça, descendente de índios Carijó. Do relacionamento nasceram quatro filhos.
Escola de arte
É provável que Andersen tenha se transferido para a Capital em 1902. Sabe-se que chegou a Curitiba nesse ano, e começou a dar aulas particulares de desenho e pintura. O artista desenvolveu em Curitiba intensa atividade como pintor e professor: ainda em 1902 seu atelier se transforma em uma verdadeira escola de arte, ali permanecendo em atividade até 1915. Além das aulas particulares Andersen também lecionou Desenho na Escola Alemã e no Colégio Paranaense.
O envolvimento do artista com o ensino foi, sem dúvida, marcante, desde o início de sua estada em Curitiba. Vicente Machado, Presidente do Estado do Paraná, no intuito de convencer Andersen a não voltar à Noruega, chegou a prometer a criação de uma escola de arte oficial na cidade, que seria dirigida pelo mestre. E apelou para o sentimento de solidariedade do artista, afirmando que a permanência do mesmo era fundamental para ajudá-lo na educação do povo paranaense.
Cidadão Honorário
Ao completar 71 anos no dia 3 de novembro de 1931, Andersen foi agraciado com o diploma de Cidadão Honorário de Curitiba pelos relevantes serviços prestados à arte do Paraná, primeiro título concedido a alguma personalidade pela Câmara Municipal.
Pintou em 1932 o seu mais conhecido auto-retrato que passou a pertencer ao acervo do Museu Nacional de Belas Artes. Faleceu em Curitiba no dia 9 de agosto de 1935 esse artista extraordinário, considerado o mais importante pintor estrangeiro residente no Brasil em sua época.
A sociedade Amigos de Alfredo Andersen
Logo após o falecimento de Andersen, seus amigos e admiradores organizam uma Sociedade de Amigos com finalidade
de criar neste espaço onde o artista viveu, uma unidade museológica para preservação de sua obra e a continuidade de seus ideais. Somente em 1959 o Museu é oficialmente criado passando a chamar-se Casa de Alfredo Andersen - Escola e Museu de Arte. Anos mais tarde o prédio é tombado pelo Patrimônio Histórico e Artístico do Estado e em 1979 passa a denominar-se Museu Alfredo Andersen.
Atualmente o Museu, cumprindo sua principal função, expõe permanentemente a obra de Andersen com mostras temáticas, realiza exposições temporárias de discípulos de Andersen e artistas contemporâneos que mantém um vínculo com o Atelier de Arte. Promove o Salão e o Simpósio Paranaense de Cerâmica bienalmente.
